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Violet Clouds

Parece que foi para isto que cresci.

Acho que me odeio pelo que sinto, mas também não creio que vá dar a volta ao pensamento assim tão rápido. Cada vez fico mais farta das notícias e daquilo a que vejo os meus e os outros a confrontarem. Irrita-me.

Penso que não falo em vão quando digo que a minha geração foi educada e criada a seguir uma falácia por parte das instituições educacionais e patrimoniais. Que fomos incentivados a competir saudavelmente, a sermos cada vez melhores e mais criativos, mais emantecipados, que fomos instruídos a amar o nosso país para após a escola o abandonarmos. A extraírmos grandes médias do ensino secundário e até da faculdade, a sonharmos com um futuro melhor para os nossos pais e mesmo até avós ou tutores, que nos criaram com tanto esforço, dedicação e suor. Ou até para aqueles que tiveram de escalar desafios sem fim para "serem alguém na vida" porque não tinham apoio de lado nenhum. E no fim, querem expedir-nos para fora como um produto, como mercadoria.

Enoja-me como os mais novos são vistos como caça-tesouros. E destroça-me ver o lado inverso da moeda, aquele que o Governo nunca irá querer ver. Fico revoltada sempre que alguém meu conhecido ou amigo, que sempre sonhou em crescer, instruir-se e empregar-se para ter um futuro melhor, ser obrigado a emigrar de mãos atadas atrás das costas porque aqui não há ninguém que queira "crianças inexperientes no mercado de trabalho" com mais instrução escolar do que muito político que anda por aí. Seja, toda a educação pela qual lutámos e estudámos, nem sequer ser apreciada. Supostamente nem nos ser útil porque o que se quer é experiência. E ver essas pessoas a preparar as malas e reuniões de despedida porque não fazem ideia de quando alguma vez voltarão para casa, se é que voltam. A saírem daqui com o coração cá, preocupado com a família. Enojou-me ter ouvido há poucos anos a comparação feita entre nós e "cientistas brilhantes de grande mercadoria" ou como o vinho do Porto. E dói-me ver pessoal da minha idade ou até mais novos abandonarem as suas casas e muitas das vezes perderem o chão que pisam porque não fazem a menor ideia do que se passa com os entes queridos. Ou sequer o que lhes vai acontecer no maldito avião que os transporta. Ou até mesmo o destino que os espera do outro lado.

E agora, após tantos anos a expedir "mentes brilhantes", começam a perceber que precisam de nós cá. Aumentam e inovam formas de ensino e planos de estudo, criam estágios e incentivam ao mercado de trabalho. Parabéns. E quanto àqueles que já saíram? Como querem que amemos e cuidemos do nosso país se nem nele há lugar para nós tanto residencial como profissional? Como querem que abandonem a vida que lhes custou a criar lá fora num estalar de dedos agora que se viram num aperto?

Quem é que vai repôr o tempo perdido, a distância mantida, as preocupações que nem um telefonema resolve porque se está tão longe e ausente? Quem é que vai pagar as lágrimas daqueles que na ausência das suas forças não têm onde se agarrar, onde se aconchegar? Ou de quando alguém que nos é querido precisa da nossa presença? Dos aniversários perdidos ou festejados por uma chamada no Skype. Do nascimento ou do óbito de um familiar. Ou até daqueles que ficam cá e vêem os pequenos partir, sentindo-se incompetentes por não terem feito mais, apesar de terem feito tudo a seu alcance.

Ninguém.

 

Peço desculpa a quem está fora ou quem já planeia ir, porque reconheço a vossa força e por muito que me custe admiti-lo, compreendo-a e aceito-a, ainda que não o faça facilmente. Mas... Às vezes não sei se penso de forma certa ou errada. A razão diz que é natural, o coração discorda.

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